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Marta Velha - Writer

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E tudo o mar levou! - Diário de Mafalda 8 março de 1892

18.03.24, Marta Velha

Livro 'E tudo o mar levou'

8 de março de 1892
A minha vida acabou… As lágrimas que já chorei enchem este mar e outros
tantos iguais. O monstro levou‑me quem mais eu amava na vida… Deixou‑me
sem nada! Sem nada! No dia seguinte à tragédia tentei acabar com a minha
vida! Se o mar tinha levado tudo que me levasse a mim também! A ti Zirinha
segurou‑me a tempo! Abraçou‑me com força e disse que eu ia sobreviver. Não acho
que isso seja possível. Aquele dia ainda está tão presente na minha memória. 27
de fevereiro… O dia tinha acordado traiçoeiro. O sol brilhava no alto. A praia
estava animada. A brisa suave que soprava parecia estar cheia de promessas!
Promessas de coisas boas. As gargalhadas dos homens à beira mar davam gosto
de ouvir. Bilhanos estava tão feliz. Sorria‑me. Pegou‑me no colo e rodopiou‑me
no ar! Disse‑me que me amava e beijou‑me ali, com todos aqueles homens e
mulheres a ver. Senti vergonha mas agora choro porque foi o seu último beijo,
o seu último abraço. No pequeno barco partiu ele, o paizinho e um neto da ti
Zirinha! Acenaram de felicidade, já iam em mar alto!
Mas a felicidade durou muito pouco… Por mais que viva, e eu quero é mor‑
rer, nunca vou esquecer este dia! Estávamos todas na praia. Conversávamos.
O vento começou a levantar. As mulheres mais velhas ficaram em alvoroço,
algumas ajoelharam‑se ali mesmo na praia e rezaram. Não percebi muito bem
o que se passava.
Vi o céu a ficar escuro. O vento, aflito, agitava‑se nas nossas pernas, levan‑
tava a areia, dava força às ondas, levava‑nos os lenços que trazíamos presos na
cabeça. O nevoeiro apareceu de um momento para o outro. Tudo ficou branco. Tive tanto medo! Alguém gritava ao longe que se nada fosse feito todos eles iam
perecer! Gritavam o nome de alguns homens para que voltassem para terra!
Mas o que é que eles viam? Tudo era branco. As lágrimas caíram pelo meu rosto,
naquele instante eu tive a certeza que ia perder tudo! Neste momento sei o que
perdi… Sei o que vi naquele dia. A morte passeava entre nós. Eu vi‑a, todos a
vimos! Juro mesmo que as suas gargalhadas estavam coordenadas com as ondas. 

Os minutos passaram lentos. Se calhar eram horas, tudo acabou. Todas
nós chorávamos agarradas umas às outras. Eu senti medo, senti frio, a dor
era como uma faca que me atravessava o coração. Assim do nada, no meio de
tantos gritos de dor, gritos que tentavam ajudar quem ainda estava sobre as
águas, começaram a aparecer corpos. Sim, já vinham mortos. Nunca mais me
vou esquecer dos olhos sem vida do ti Jaquim. Nunca… Paralisei quando vi
um outro corpo. Aquele casaco grosso, verde escuro… Tinha a certeza que era
o paizinho! Corri! Gritei! Chorei! Chamei o Bilhanos! Nada, nem uma res‑
posta! O pior confirmou‑se. O paizinho estava ali, morto, de olhos fechados,
na sua mão, um terço. O mesmo terço que a mãezinha tinha quando faleceu,
não precisei de procurar muito para confirmar que no seu bolso estava a Bíblia
Sagrada. De nada valeu pedir a Deus para os livrar da morte. E agora peço a
Deus que me leve! Quero livrar‑me desta dor…
Os dias passaram, mas a dor está no rosto de todos. Ainda há aquele medo de
regressar às águas do monstro. Há quem ainda chore por quem não apareceu. O
corpo do Bilhanos foi engolido pelas águas, nunca deu à costa. Tenho esperan‑
ça que esteja vivo noutro sítio qualquer, num porto distante. Quando estou a
dormir acordo sobressaltada com o cheiro a mar e a sal…Penso sempre que é ele
e que regressou para me abraçar e para dizer que está tudo bem! Dizem que é
impossível ele estar vivo porque a ajuda nunca saiu para o mar. Era impossível
que saíssem e não morressem também.
Mafalda.

 

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