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Marta Velha - Writer

29
Jul17

Quatro estações! :) Mini conto

Marta Velha

estações.jpg

 

 

     Já é Verão! Sei que é… Sinto o calor, ouço a brisa suave lá fora. As crianças riem e sei que correm! Abre a janela por favor! Quero ter o prazer de olhar lá para fora! Que maravilha é fechar os olhos e sentir os raios de sol no meu rosto. Já vais embora? Fica mais um pouco, por favor!

     Olho para o teu rosto e hoje pareces-me tão triste. Não sei se fiz alguma coisa que te magoou. Tenho vergonha de te perguntar. Não sei qual será a tua resposta. Olhas-me triste, dás-me um beijo e partes. Vou ficar aqui com aquelas antipáticas! Eu nem me lembro do nome delas! Argh! Que raio de emprego este! Devia-te ter dito que odiava este trabalho. Talvez assim não me olhasses com esses olhos. Talvez assim me percebesses! Não importa. Vou ficar a olhar pela janela. Gosto de ver as crianças a brincar! Gosto de ouvir as suas gargalhadas! Gosto do cheiro do Verão! Ah e gosto dos raios de sol no meu rosto.

     Não sei se alguma vez te disse que adoro as visitas que me fazes! Ah e aquele livro que estavas a ler? Despertou-me curiosidade. Não me lembro se to pedi emprestado. Sei que estivemos horas a falar daquelas personagens. O par romântico quase que me fez chorar. Falaste com tanto entusiasmo da rapariga! Na altura quase que senti ciúmes mas depois apercebi-me que nós também temos uma bonita história de amor! Adoro quando me sorris! Ah e o som da tua gargalhada? Meu Deus! Arrepio-me só de pensar nela! Mas por falar nisso, já não te ouço a gargalhar há muito tempo! Que se passa contigo Frederico? Já foste embora mas ainda sinto o calor das tuas caricias no meu rosto. Ainda sinto o beijo suave que me deste. Nunca foste de muitas palavras. Sempre foste de actos! E é isso que me faz amar-te. Estás com problemas no trabalho? Queria tanto ajudar-te. Mas como o posso fazer se nem eu gosto do que faço?

     Não faz mal! Prometo que amanhã quando vieres que te farei rir! Vou lembrar-me das parvoeiras que estas minhas colegas antipáticas fazem! Vou contar-te tudo! Tenho a certeza que vais soltar uma gargalhada! Ah e vamos falar de livros! De histórias românticas! Ou talvez daquele livro de terror que sempre tive medo de ler! Não interessa! Interessa que vamos falar, falar e dar uma gargalhada! Vou dizer que te amo. Há tanto tempo que não o digo! E isso envergonha-me. Humm, acho que sonhei! Mas no outro dia tive a sensação que me sussurraste ao ouvido essa palavra maravilhosa que diz tanto!

 

     O tempo anda a passar tão rapidamente! Acreditas que não me lembro da última vez que saímos juntos? Foi há quanto tempo? Oh, estás a ler desculpa! Adoro quando me olhas com esse olhar apaixonado. Fico tão derretida! Mas vá, continua a ler. Não te quero interromper. Ah e se fossemos aquele restaurante japonês? Adoramos partilhar o sushi! E quando comemos com aqueles maravilhosos pauzinhos? Lembras-te da primeira vez que o fizemos? Ah a tua gargalhada outra vez! Oh Frederico é tão bom ver-te a sorrir! Amo-te, amo-te, amo-te! E não estivesses tu tão entretido na leitura dava-te um abraço! Podia ficar assim horas! Abraçada a ti, sentir o teu calor! Sei o que farias. Ias ajeitar-me o cabelo! Ias sorrir para mim! Ias mordiscar-me a orelha! E a seguir ias beijar-me como só tu sabes fazer! As tuas mãos iam passear pelas minhas costas! Ah, é tão bom amar-te e saber que também me amas! Mas estás a ler! Olha lá, não era melhor fechar a janela? Ainda ontem era Verão e já estamos no Outono. Já não há tantas crianças lá fora! Mas eu andei lá fora a brincar com elas! Nem te contei! Andei a correr entre as folhas amarelecidas! Ouvi-las a estalar debaixo dos meus pés foi maravilhoso! E o vento a bater-me no rosto foi tão libertador! Parece-me que me libertei de tudo que era mau! Adoro as crianças! Acho que nunca falámos disto, mas o que achas de termos um filho? Oh, vá lá! Não me olhes com essa cara! Eu sei que não é assunto que se tenha enquanto estás a ler! Desculpa! Pronto, prometo que vou ficar calada enquanto lês!

  

     Mas que frio! Eu bem que esfrego os braços, mas o frio parece que me penetra nos ossos! Este casaco que me ofereceste é maravilhoso. Não me lembro muito bem qual foi a ocasião em que mo deste, mas isso não importa. Estás mais magro! Que se passa Frederico? Estás aqui a agarrar a minha mão, a acariciá-la mas tão calado! Está tudo bem contigo? Eu compreendo meu amor, a sério que sim! Também tenho uma colega que me faz a vida num inferno! É a Madalena! Não te contei? Oh meu Deus! É má! É mesquinha! Finge-se minha amiga mas lá no fundo sei que me quer lixar a vida! Enfim! Já não lhe ligo! E quando vem aqui ter comigo ignoro-a! Entra muda sai calada mas eu faço igual! Irrita-me pessoas como ela! Mas não vamos falar de coisas que me irritam. Vamos falar daquela viagem que queríamos fazer por esta altura. Já viste como o tempo passa rápido! Falta um mês para o Natal! Oh meu Deus! Ando a pensar nas prendas que irei comprar. Nunca sei o que comprar! E depois ando numa correria de última hora! Mas é divertido! Ah estás a sorrir! Diz-me que também te lembraste daquela camisola com a cara de rena que te comprei? Oh claro que te lembraste!! Amo-te!

     Desculpa, mas vou até à janela. Está a chover! E sabes bem como adoro ver a chuva a cair! O vento a fustigar as árvores! As folhas a rodopiarem no chão! Ah, mas hoje temos música? Não acredito!! Oh! Vivaldi! Diz-me que foste tu que pediste esta música para me animar? Oh meu amor! Sim, eu sei o nome da música! Calma, vou lembrar-me! Se fechar os olhos e ouvir bem estes violinos… Oh claro! Four Seasons! Mas tem tudo a ver! Se vieres à janela verás como o vento dança ao sabor desta música! E as folhas? Primeiro a rodopiar rápidas agora mais lentas! Oh! Tenho a certeza absoluta que foste tu que pediste música! Aposto em como a Madalena vai reclamar! Aposto! Ela deve odiar este tipo de música! Mas que odeie! Importa que nós gostamos. Vá, vamos ficar aqui na janela, até o tempo adora esta música. Tão suave agora! Fecha os olhos e sente! Maravilhoso! Sempre gostei de violinos! Até andei a aprender a tocar! Nunca fui muito longe. Os meus pais tinham esperanças que eu fosse alguém na música. Nem sei bem porque é que desisti. Mas não importa…

     Com esta música só me apetecia estar em casa contigo. No nosso sofá. Já estivemos assim tantas vezes. Deitados, a namorar, numa troca de beijos, de caricias. Numa troca de amor! Oh, Frederico como te amo! Mas estás tão distante! Vá, acaba lá de ler o teu livro. Eu vou ficar aqui a ouvir a música suave. Só me apetece rodopiar ao som destes violinos. Mas tenho que evitar! Se a Madalena me apanha! Vá, não te rias! Estou a falar a sério. Podíamos rodopiar os dois! Numa dança como tantas vezes o fizemos! Olha, lá fora, na chuva! Era maravilhoso! Já vais embora? Eu compreendo, vai lá. Vou ficar aqui a ver-te. Sim, claro que te aceno! Voltas logo, não voltas? Logo a Madalena não estará por cá! Também te amo. Ah deixa a música a tocar! Sempre posso imaginar que estou lá fora a rodopiar.

 

     Vá lá! Vamos até lá fora! O tempo já aqueceu! Tenho a certeza que posso fazer uma pausa de dez minutos! Bebemos um cafezinho! Vá lá! Anda! Já há pássaros! E aquelas flores? Já as viste bem? E se apanhássemos umas margaridas? Podia deixá-las aqui junto a mim! Assim, sempre que estivesses ausente, lembrar-me-ia de ti! Vá lá Frederico, vamos! Está bem, quando me olhas assim derretes-me! Eu espero! Mas já é Primavera! Sabes o que me apetecia fazer? Correr descalça por aquela maravilhosa relva! Está bem, eu espero mais uns dias! Tens razão. Amo-te!

 

  

     “-Boa tarde Frederico? Como está?” – Olhou-o com pena. Há quanto tempo é que estavam naquela situação? Quatro estações! Um ano! “-Um novo livro?”

     “-Sim!” – Suspirou. “-A Fátima sempre gostou de ler!” – Esboçou um sorriso triste. “-Como é que ela está hoje?” – Segurou a mão de Fátima.

     “-Gostava imenso de lhe dar uma notícia diferente da de ontem! Mas infelizmente não posso mentir! Está igual! Há situações de doentes que ficam em coma anos e depois…” – Ficou em silêncio enquanto o via a carregar no botão do leitor de CD’s. “-Vejo que seguiu a minha recomendação e trouxe música!”

     Frederico sorriu. “-Ela toca muito bem violino. E esta peça de Vivaldi é uma das suas preferidas! Chama-se Four Seasons.” – Olhou para a doutora Madalena. “-Precisamente o mesmo tempo em que ela está presa a esta cama. Quatro estações!” – Tinha os olhos marejados de água. “-Há esperanças?”

     A doutora rabiscou algo na ficha de Fátima. “-É Primavera! É tempo de esperanças! De renovações! Não perca esse amor que lhe tem! Porque tenho a certeza que é isso que a agarra à vida!”

     Frederico ajeitou o livro na mesinha de cabeceira. Acariciou a mão de Fátima, ajeitou-lhe o cabelo como fazia tantas e tantas vezes, beijou-a na testa e sorriu.

 

  

     Vá lá Frederico! Vamos até lá fora! Não perguntes à Madalena se posso! Ela vai dizer-te que não! Vá! Vamos dançar ao som desta Primavera! Mas já vais embora? Fica mais um pouco. Dança comigo! Pronto está bem, eu deixo-te ler sossegado. Mas depois promete-me que vamos correr descalços pela relva! Amo-te!

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